sexta-feira, junho 23, 2006

Carta aberta e quase íntima à Ministra da Educação...

por correio electrónico chegou esta carta aberta:

junho 09, 2006

Carta aberta e quase íntima à Ministra da Educação...

Minha Cara Maria de Lurdes Reis Rodrigues

Nos tempos que correm, você é, digamos, a face visível do meu patrão, o Ministério da Educação. Não me sinto, porém, "seu" empregado; sinto-me seu igual. Sou também, como você, professor (há mais de duas décadas), tenho, de vida, alguns anos a mais do que você (para infelicidade minha), escrevo e publico poesia (e sempre gostei de partilhar poesia com os meus alunos, apesar de não ser professor de Português ou de Língua Portuguesa) e, talvez diferentemente de você, quando entrei para a Faculdade, não planeava ser professor, mas jurista. E, antes de ter optado por ser professor, fiz outras coisas na vida: fui tradutor, fui assessor jurídico, fui advogado, fui jornalista, fui gestor comercial. E tenho três filhos, dois dos quais estão ainda no ensino básico e em escolas "públicas", quero dizer, escolas "do Estado". Tenho pensado, escrito e publicado "alguma coisa" sobre educação, currículo que, infelizmente, não lhe reconheço.
Não sei, por isso, francamente, entre nós, quem terá mais autoridade para falar de educação e de ensino. Claro: você é a Ministra da Educação: tem autoridade política. Mas não era desta "autoridade" (circunstancial) que eu falava. Referia-me a outra: aquela que decorre da reflexão, da experiência e do interesse (não profissional, corporativo ou político, mas "civilizacional").
Tenho, diante dos meus olhos, um Despacho assinado por si, datado de 7 de Junho (ou seja, de anteontem). Está para publicação no Diário da República. Estabelece (transcrevo-o) " regras e princípios orientadores a observar, em cada ano lectivo, na elaboração do horário semanal de trabalho do pessoal docente" (...), "bem como na distribuição do serviço docente correspondente". Define ainda " orientações a observar na programação e execução das actividades educativas que se mostrem necessárias à plena ocupação dos alunos dos ensinos básico e secundário durante o período de permanência no estabelecimento escolar".
Não quero discutir consigo o conteúdo do Despacho. É, simplesmente, mais um Despacho, uma fórmula legislativa que os episódicos governantes deste pobre país gostam muito de usar para dar a entender (coitados!) que sabem e que podem. Não leve a mal que a desiluda: de Despachos Ministeriais (bem ou mal intencionados) está o inferno (e Portugal) cheio. Em mais de duas décadas, não sei de nenhum Despacho que tenha, efectivamente, contribuído para mudar a qualidade das aprendizagens dos nossos alunos (quero dizer: dos nossos filhos).
Você sabe tão bem quanto eu: precisamos de professores qualificados, profissionalmente autónomos e responsáveis e motivados. Mas não acredite que os crie por Despacho. E com Despachos como este, e com todas as declarações que tem vindo a fazer sobre os professores (e não discuto sequer se com razão ou sem ela), só tem conseguido, liminarmente, uma coisa: humilhar e desmotivar os professores em geral, os competentes e todos os outros.
Escolheu, imprudentemente, o caminho errado. Porque você ainda não percebeu que não basta ter autoridade política para "mandar" e para "mudar". É preciso suscitar a paixão, o entusiasmo, a clarividência, o pundonor. E, nesta arte, você tem-se revelado, lamento muito escrevê-lo, completamente incompetente. Conseguiu apenas fazer-se odiar (pelas melhores e pelas piores razões). Não vejo, sinceramente, como o ódio que, actualmente, os professores lhe devotam poderá contribuir para a felicidade dos meus filhos.
Lamento muito (repito) escrever isto, porque até comecei por simpatizar consigo. Continuo a considerá-la uma pessoa bem intencionada. Mas, porventura mal aconselhada, errou o método e o alvo. E agora já é muito tarde para voltar atrás e reganhar a confiança daqueles que deveriam ser os seus principais aliados.
Com toda a franqueza e com toda a frontalidade, entre colegas, permita-me que lhe diga: acho que deveria demitir-se e dar o lugar a outro. Talvez ao António Nóvoa, agora o seu Reitor, se ele estivesse disponível para colar os cacos que deixou (infelizmente, não acredito que quisesse). Pena que, em devido tempo, não se tivesse aconselhado com ele...

esquisso:Este post é uma das muitas formas de homenagear os Professores e festejar o São João, utilizando um martelo virtual.

sorria está a ser filmado/a!

23 comentários:

batista filho disse...

Meu amigo, em todos os quadrantes, nesses tempos bicudos, tadinha da educação!
Deixo um abraço fraterno, na esperança que esses pequenos gestos se multipliquem para que possam fazer alguma diferença.

Isabel-F. disse...

Concordo inteiramente com as tuas palavras e subscrevo-as....

e...
bom S. João ... diverte-te...

bfds
bjs

Arrebenta disse...

Muito bem :-)

isabel disse...

Infelizmente a educação não é prioridade...e nem será interessante que o povo tenha " educação ".
Bom S. João tb para ti...

madalena pestana disse...

Martelar a cabeça da Ministra? Sabia bem mas estragava o martelo.

Aquilo tem cabeça de ferro e sensibilidade de eelefante em ´pontas.

Enfim...o governo que o sábio Sócrates nos impõe.

bjs Fica bem.

florence nightingale disse...

quem e esta gente????
tou paqui a ler isto e esta falsa cumplicidade ta-me a começar a irritar...
voces sao aquilo tipo de gajos que so ao tiro...
vao morrer longe.
vi este blog pela primeira vez e tou mesmo irritado com esta merda!!!

TR disse...

Inicialmente também simpatizei com a sra ministra. Confesso que em uma ou duas entrevistas até considerei a hipótese de ela ter objectivos bem determinados para levar a cabo. E talvez até tivesse. Acontece que, como todos sabemos, ela passa o tempo a contradizer-se e o mínimo de coerência que o seu discurso poderia ter, desaparece. Eu penso que ela tem um enorme problema para além da indicustível falta de orientação: ela não sabe o que é ser professor, nem tem perfil político, ou seja é um desastre. Ela não sabe quando deve falar e quando deve estar calada. Ela cai no ridículo por culpa própria e também por inexperiência política. E isto, até seria desculpável, naturalmente, se ela tivesse um plano interessante para as diversas e complicadas questões da educação. Acontece que não tem e cabe-nos a nós exigir ao governa que a ponha na rua, enquanto ainda é remediável. (duvido que haja uma alternativa para ela.)POr outro lado, a questão da educação é demasiado complicada, especialmente porque já ninguém sabe onde começa e acaba o papel da escola e dos professores. É precisamente por aqui, quanto a mim que deve começar a intervenção de qualquer ministro da educação, por redefinir o papel da escola. E o papel da escola, independentemente da falta de tempo gritante dos tempos modernos, é apenas o de sempre: ensinar. A educação cívica é intrínseca ao ensino, mas não é uma obrigatoriedade da escola. É em preimeiro lugar dos pais e deposi da sociedade em geral. Se o menino é mal educado não cabe ao professor ensiná-lo a não o ser. Cabe aos pais, e portanto, a solução da escola deve ser simples: vai para casa, ponto final. Os pais que resolvam os problemas que são da sua responsabilidade. Só assim se responsabilizam os pais, obrigando-os a tomar conta da sua obrigação e não culpando a escola por não desempenhar ou desmpenhar mal tarefas que não lhe cabem. Se um professor ensina mal e os seus alunos não tiverem rendimento nas mãos dele e tiverem logo a seguir nas mãos de outro, então terá de ser responsabilizado também por isso. Etc, etc etc.

Eu dei aulas no ensino secundário durante seis anos no Porto e em Lisboa e, não é que seja vidente, mas o filme que passou por miim nesses anos, deixou-me arrasada e decidi abandonar o ensino, ainda que na altura não tivesse qualquer alternativa de emprego. Era muito nova. Fi-lo na altura certa. Hoje seria quase impossível, admito. E hoje, de uma forma algo narcisista, admiro a minha coragem de então e agrdeço a mim mesma tê-la tido. Os problemas do ensino têm surgido em crescendo, são de longa data e não se resolvem, como diz e muito bem, por despacho.

Finalmente, epeço perdão porque era assim que devia ter começado, excelente post!

Mas.... desculpe, está no Porto, em Lisboa, na Guarda, em Aveiro, em Bragança ou será na bela Mértola, ....? :-))

TR disse...

bem, vejo agora o tamanho do meu comentário.... É quase ilegível.... sorry! :-))

della-porther disse...

O texto me fez lembrar muito Paulo Freire..."Não é possível exercer a atividade do magistério como se nada ocorresse conosco. Como impossível seria sairmos na chuva expostos totalmente a ela, sem defesas, e não nos molhar.Não posso ser professor sem me pôr diante dos alunos, sem revelar com facilidade ou relutância minha maneira de se, de pensar politicamente".

Beijos e bom fim de semana

fv disse...

Em meu nome e de milhares de profissionais que, tal como eu, dedicaram uma vida ao ensino, muitas vezes prejudicando a própria família para viverem de corpo e alma a sua profissão/ devoção, agradeço esta homenagem.

Anónimo disse...

Meus Senhores, especialmente tr

Isto é que vos lixa:
" regras e princípios orientadores a observar, em cada ano lectivo, na elaboração do horário semanal de trabalho do pessoal docente" (...), "bem como na distribuição do serviço docente correspondente". Define ainda " orientações a observar na programação e execução das actividades educativas que se mostrem necessárias à plena ocupação dos alunos dos ensinos básico e secundário durante o período de permanência no estabelecimento escolar".

Não gostam de regras?

madalena pestana disse...

Passei a dessejar-te um bom fim de semana.

Bj

E embora ligue mt pouco a bola que vença a nossa Selecção. " o que é nacinal é bom,,,"

;)

sem-comentarios disse...

Apoiado ! belas marteladas !

Bj e bom fim de semana ***

TR disse...

Caríssimo anonymous,

Não percebi. O que é que quer dizer com isso? O que é que eu disse contra a Sra Ministra que lhe indicasse que sou contra todos as sugestões que ela faz? Se tivesse lido o meu comentário teria percebido que o que eu critico na Sra Ministra não são as regras que ela propõe, mas sim, a falta de coerência nas propostas com que avança e nos seus discursos. Não sou apenas eu, que já fui professora, e já não sou, que o digo, há muitas pessoas muito conhecidas e conhecedoras do tema que a vêm criticando. Exemplos de incoerência, infelizmente, também não faltam.

agua_quente disse...

Gostei dessa martelada na cabeça da ministra! Mas não me parece que adiante muito... :)
beijos

Era uma vez um Girassol disse...

Não sou professora, mas ajudo!!!!!
Agora mesmo o Maniche meteu um golo na baliza dos laranjinhas em Nuremberga, mais uma martelada na cabeça da ministra!
Bjs

Å®t_Øf_£övë disse...

Adesenhar,
"Marteladas" destas venham muitas que são benvindas.
Abraço.

Isabel-F. disse...

boa semana para ti.

Beijos

madalena pestana disse...

Pelo que me foi dado ver,um blog estéticamente bom e inteligente.

Passarei mais vezes.

Luisa disse...

Linda carta: incisiva mas não ofensiva. Quanto ao martelo de S. João, é dar-lhe na cabeça com força (na da Ministra, claro...)

Cristina disse...

Olá,
Vejo que continuas com os teus posts sempre muito inteligentes :)))), continua sempre assim...
O São João já foi, espero que tenha sido divertido para ti e para os teus :)))
Um beijinhuuu GRANDE
P.s.
Vejo que já me descobriste
:)))))
Obrigada pelo teu sempre carinho para comigo

madalena pestana disse...

Vim ver mais um ouco deste rico blog.

:)

lenivai disse...

Passei aqui, o q ja n fazia há algum tempo, por falta de tempo (ops) e resolvi dar uma espreitadela. Vi a carta dirigida à ministra e tive curiosidade de ver os coments.
Caro anonynous realmente com pessoas como voce (possivelm a avliar) e a ministra (a mandar) o ensino realmente vai andar p a frente.
Como pode sequer pensar q os professores n gostam de regras??!!
Notei aí uma raiva contida e dirigida aos professores!? Recalcamentos??!!
Como é q um prof. numa sala de aula cosegue trabalhar (aula expositiva, trabalho individual ou de grupo), com ceca de 25, 28 alunos se não seguir regras??!!
Está mesmo out.
Obrigada adesenhar por virares tb o teu interesse p esta questão, actualissima, da perseguição ministra versus professores, com algum do povinho a aplaudir e a querer avidamente fazer de professor com a dita avaliação q a ministra lhe prometeu.

o gatinho branco é teu? É lindo de morrer.
bom fim semana e bjinhos