
Hoje, dia 23, comemora-se o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor. A escolha do dia deve-se ao facto que vários escritores consagrados, como Miguel de Cervantes, William Shakespeare, Vladimir Nabokov e Josep Pla, nasceram ou morreram em 23 de abril.
A minha escolha vai para um livro que acabei de receber das mãos do carteiro amigo, por ter sido o visitante 1 000 000 do blog *DoPortugalProfundo*, O Décimo Quarto Zero de Enzo Russo. Para abrir o apetite literário aos meus visitantes e o meu, porque ainda não o li, cá vai...
Enzo Russo
Seria fácil e tranquilizador começar por declarar, como é costume, que qualquer alusão a factos verificados na realidade não passa de pura coincidência. Mas trata-se de uma afirmação que não tenho coragem de fazer. Preferia escrever um ensaio, mas a minha linguagem é a da narrativa. Assim, parafraseando Verdi, inclinei-me para «um ensaio mascarado». Até ao início da década de oitenta ainda era possível derrotar a Mafia, porque os seus chefes eram conhecidos e o seu poder financeiro limitado. Mas não quiseram derrotá-la. Hoje, quanto a mim, é demasiado tarde. Personagens irrepreensivas e ignoradas de todos, em Palermo e na Europa, movimentam cem mil milhões por ano, pairando sobre a lei, alfândegas e pessoas que se iludem e esperam. Uma arrepiante perestroika e uma ausência total de glasnot. Fazer de anti-Mafia, hoje em dia, para um juiz ou para um cidadão, não é apenas difícil, mas inútil. Os factos dos dois últimos anos, que ainda não se tinham verificado quando comecei a escrever, demonstram-no de forma implacável. Seguir-se-ão outros, porventura piores. Por isso, embora estime profundamente este meu livro, devo admitir que não acredito na sua utilidade. Em todo o caso, escrevi-o porque qualquer coisa é preferível ao silêncio. Mas sobretudo porque desejo pagar o meu tributo de siciliano à Sicília, dominada pela Mafia à qual foi abandonada pelo Estado e considerada pela opinião pública como responsável e, com frequência, cúmplice daquela organização. Não podia transformar a derrota em vitória. Nem inverter a corrente da opinião pública. Apenas podia escrever.
nota: Agradeço ao Carlos Medina Ribeiro do Sorumbático
pelo envio deste livro.